O Vôo Que Aqui Já Não Pode Mais Efetuar-Se


meus pés são o gelo inderretível

que diante do sôfrego estampar

das mudas de roupas cansadas

perto do queimado altar

tentam ter alguma daquelas penas

algumas daquelas penas

meus amigos humanos

que um dia tivemos bem às costas

penas que nos guiavam pelas

altas maravilhas das altas encostas

das montanhas abaixo de nós

das montanhas acima de nós

asas que batiam

ao ritmo do cadenciar

das chamas incandescentes

nascidas dos nossos pés

chamas dedicadas ao erguer nosso

de todos os menores solos

os solos que ajudávamos

nossos distantes amigos perdidos

no que já não é mais do que

o sono das fortes cores do passado

nossos distantes amigos perdidos

aqueles que ainda possuem asas

aqueles que ainda voam entre nós

aqueles que ainda voem em nosso redor

aqueles que cantam a cada luz solar

aqueles que cantam a cada brilho lunar

aqueles que cantam a cada brilho estelar

aqueles que ficam em tronos de madeira

buscando nas relvas das nossas incertezas

aqueles tesouros que grudados

às nossas antigas almas ficava

ouro a fazer com que nós

tivéssemos muitas asas

que cantavam as mais verdadeiras sonatas

sonatas aos que forjam

os martelos da construção de todas as

coisas em desconstrução constante

desconstrução é tudo do universal

desconstrução é o todo da criação

a nossa criação de lodo

a nossa criação de esgoto

a nossa criação de gelo

aos nossos pés hoje horrendos

gelo e pedra em nossos pés

gelo e pedra aos nossos pés

pés que um dia sobrevoaram

as estâncias ricas das ricas mansões

as essências primordiais das ordens

da tremenda ordenação

as gloriosas fulgurantes pontes

que construidas nos furacões ensinantes

estão a nos acenar para os que

ainda possuem asas

as asas que cairam perto de algum

rio de vítimas de uma suja guerra

a suja guerra que decidiu

que seriamos apenas humanos

fadados aos excessos e aos pecados

dos elementos maiúsculos e minúsculos

a nos tornar sadios

a nos tornar loucos

não somos sadios

somos loucos

provocamos a guerra

com a nossa sede de bebermos esgoto

o esgoto que veio a derrubar

as nossas queridas asas

o esgoto que veio a de nós retirar

o vôo

aquele vôo

o vôo

aquele vôo

o vôo

aquele vôo

o vôo que aqui não pode mais

efetuar-se

estamos engaiolados

estamos apresentáveis ao violável

estamos sendo pássaros mutilados

pássaros que podem ter ainda

e de novo

as suas asas

pássaros que possuem ainda

ocultas

as suas asas

pássaros que estão no gelo

pássaros que estão presos à pedra

o gelo do desterro

a pedra da queda




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